Se há algo que gosto de fazer é ler estudos de mercado e tirar insights do agro. Eles ajudam a avaliar cenários. Eles também permitem comparar movimentos entre países. Principalmente, eles ajudam a entender se aquilo que estamos percebendo no dia a dia também aparece nos dados.

Foi com esse olhar que li o Global Farmer Insights 2026, estudo da McKinsey que ouviu 5.500 produtores rurais em dez países, entre eles o Brasil.

Alguns resultados me chamaram especialmente a atenção porque ajudam a entender o momento atual da inovação no agro.

Minha principal leitura é que o ambiente econômico está elevando a régua para a adoção de novas tecnologias. O produtor continua disposto a testar soluções. No entanto, custo, retorno, desempenho comprovado e aderência à realidade da propriedade estão pesando cada vez mais na decisão.

Para empresas que desenvolvem tecnologias para o agro, isso traz uma questão importante. É crucial determinar como demonstrar que uma inovação realmente entrega valor para quem vai utilizá-la.

Insights do Agro: A pressão sobre as margens também afeta a inovação

O estudo mostra um produtor mais cauteloso em relação aos gastos. Na comparação com 2024, a expectativa líquida de aumento de despesas caiu 24 pontos percentuais globalmente. O Brasil também aparece entre os países em que essa retração foi relevante, com queda de 24 pontos percentuais.

Quando as margens ficam pressionadas, algumas despesas passam a ser revistas. Segundo o levantamento, 36% dos produtores indicam os fertilizantes como uma das primeiras categorias em que reduziriam gastos. Máquinas e equipamentos também entram nessa avaliação.

No Brasil, encontramos sinais semelhantes.

A projeção mais recente da CNA estima o Valor Bruto da Produção agropecuária brasileira em R$ 1,45 trilhão em 2026. Isso representa uma queda real de 4,1% em relação a 2025. Mesmo com desempenho produtivo favorável em diversas commodities, a retração dos preços recebidos pelos produtores pressiona o resultado.

Um exemplo ainda mais concreto aparece na soja em Mato Grosso. Para a safra 2026/27, o custo total está projetado em R$ 8.171,41 por hectare, alta de 16,69%, enquanto o indicador de rentabilidade deve recuar 35,05% em relação à safra anterior.

Esse contexto econômico importa quando falamos de inovação.

Uma nova tecnologia disputa orçamento com fertilizantes, defensivos, máquinas, financiamento, mão de obra e tantas outras necessidades da propriedade. Quanto maior a pressão sobre a margem, maior tende a ser a necessidade de justificar um novo investimento.

A inovação continua na agenda, mas os critérios estão mais claros

Um dos pontos mais interessantes do Global Farmer Insights 2026 é justamente este. Mesmo diante do cenário econômico mais desafiador, a inovação continua fazendo parte da agenda dos produtores.

Mas a adoção está concentrada em tecnologias capazes de resolver problemas específicos da propriedade. Elas podem se integrar aos processos já existentes. As tecnologias demonstram valor nas condições locais.

Uma fala de um produtor brasileiro entrevistado pelo estudo sintetiza bem esse comportamento. Ele explica que uma nova tecnologia é introduzida gradualmente e que, ao final, são calculados custo e retorno.

Para mim, esse é um ponto importante para quem trabalha com desenvolvimento de tecnologias no agro.

A estratégia de inovação precisa considerar desde cedo como a solução será testada, validada e incorporada à realidade do produtor.

Isso envolve desempenho técnico. Além disso, considera o custo e o retorno esperado. A facilidade de utilização é importante. Há também a compatibilidade com os processos que já acontecem dentro da propriedade.

Insights do Agro: Biológicos mostram como a adoção pode avançar

Os produtos biológicos são um bom exemplo desse movimento.

No levantamento global, 41% dos produtores relatam utilizar biocontrole. Além disso, 48% utilizam bioestimulantes. A América Latina aparece entre as regiões de maior adoção.

Outro dado interessante é a forma como essa adoção acontece. Aproximadamente um terço dos produtores que utilizam biológicos já aplica essas soluções em 100% da área. Os demais ainda adotam de maneira seletiva, testando antes de ampliar o uso.

Isso ajuda a mostrar a importância da construção de evidências.

Uma tecnologia pode ter resultados promissores em laboratório ou em condições controladas. Para chegar ao mercado e ganhar escala, entretanto, precisa demonstrar consistência em diferentes condições de uso.

No agro, a validação local tem um peso enorme.

Solo, clima, cultura, manejo, região e sistema produtivo podem interferir no desempenho de uma solução. Por isso, ensaios de campo, áreas demonstrativas, protocolos de validação e acompanhamento técnico fazem parte do caminho de adoção.

O próprio estudo destaca que empresas menores e especializadas podem ampliar sua presença. Elas podem fazer isso por meio da geração de evidências locais. O apoio de especialistas e a integração de suas soluções aos programas agronômicos já utilizados pelos produtores também são fundamentais.

Agtech e inteligência artificial: facilidade de adoção também importa

A digitalização segue avançando, embora em ritmos diferentes.

Globalmente, a utilização de pelo menos uma tecnologia agtech cresceu quatro pontos percentuais desde 2024. Agora, essa utilização chegou a 50% dos produtores pesquisados. Sensoriamento remoto e softwares de gestão agrícola estão entre as categorias que mais avançaram.

Mas o relatório chama atenção para algo que considero particularmente relevante. Retorno mensurável é importante. Ele sustenta a adoção. A redução do custo e da complexidade de entrada também são fatores significativos.

A inteligência artificial generativa reforça essa discussão.

O estudo identificou que 17% dos produtores pesquisados já utilizam IA generativa em atividades relacionadas à propriedade. Porém, apenas 4% pagam por alguma solução. Quase três quartos acreditam que essa tecnologia terá algum impacto sobre suas atividades nos próximos três a cinco anos.

É um sinal interessante para quem desenvolve tecnologia.

Nem sempre a solução mais sofisticada será aquela com maior velocidade de adoção. Baixa barreira de entrada, facilidade de experimentação e utilidade perceptível desde os primeiros usos podem fazer bastante diferença.

Insights do Agro: O digital cresce, mas o conhecimento técnico continua decisivo

Outro aspecto que me chamou atenção foi a jornada de decisão do produtor.

Hoje, 36% apontam canais digitais como sua fonte preferida para comparar opções de compra. Isso representa um crescimento de 14 pontos percentuais em relação a 2024. Ao mesmo tempo, 56% apontam os agrônomos técnicos como uma das principais influências na decisão.

São dois movimentos que precisam ser observados juntos.

O produtor tem mais autonomia para pesquisar tecnologias, comparar alternativas e buscar informações. Mas isso não elimina a importância de quem consegue traduzir conhecimento técnico para a realidade da propriedade.

Para quem desenvolve inovação, essa combinação tem implicações importantes.

A comunicação digital pode despertar interesse e ampliar o acesso à informação. A validação técnica ajuda a construir confiança para a adoção. A demonstração em campo também é crucial. Além disso, a atuação de profissionais que conhecem aquela realidade é essencial.

O que esse cenário sinaliza para quem desenvolve inovação no agro?

Depois de ler o estudo, fiquei pensando especialmente nas empresas. Elas estão estruturando seus projetos de P&D. Estão desenvolvendo novos produtos ou buscando parceiros tecnológicos.

Muitas vezes, concentramos grande parte da discussão sobre inovação no desenvolvimento da tecnologia. No agro, precisamos olhar também para como essa tecnologia chegará ao ambiente real de uso.

Insights do Agro: o Global Farmer Insights 2026 reforça algumas perguntas que considero importantes desde a estruturação de um projeto de inovação:

  • qual problema relevante do produtor estamos resolvendo?
  • Como vamos medir o resultado? Que evidências serão necessárias?
  • Em quais condições a tecnologia precisa ser validada?
  • Quanto custa sua adoção? Como ela se integra ao manejo atual?
  • E quem ajudará o produtor a compreender e avaliar seu valor?

São perguntas de mercado, mas também deveriam fazer parte da estratégia de desenvolvimento tecnológico.

Em um cenário de margens pressionadas e maior oferta de soluções, a inovação continuará encontrando espaço no agro. A diferença estará cada vez mais na capacidade de demonstrar, de forma concreta, o valor que ela entrega.